03/04/2012



O tema da Salomé bíblica seduzia-o, como seduziu muitos nomes das artes do final do século XIX orientalista e decadentista, mas pela vontade de lhe acrescentar uma venenosa dimensão necrófila. Salomé era a beleza maldita, a luxúria e a histeria, era o animal monstruoso, de uma sobre-humanidade indiferente a tudo o que não satisfizesse a sua sensualidade de mulher.


[Oscar Wilde, «Salomé»]

02/04/2012


O que era preciso era continuar. Continuar a mentir o mais perfeitamente, sem qualquer deslize, usando todos os recursos da imaginação, mas agora sem o antigo prazer de derrotar a realidade, antes uma angústia cada vez maior a crescer-lhe no peito, o que o obrigava a procurar a alívio nos químicos que minuciosamente doseava, porque nada devia transparecer na sua cara que o pudesse trair. Era preciso mentir sobre a mentira e continuar. Sentia-se esgotado, mas a paixão fazia-o continuar. Se não há uma verdadeira vida também não pode haver uma verdadeira morte. Se calhar teria sempre de continuar. Este pesadelo fê-lo estremecer e abrir os olhos que julgava abertos. Escurecera. Procurou o interruptor do candeeiro e uma luz azulada encheu o quarto. Que horas seriam? Ela não devia tardar.

Levantou-se de um pulo, abriu as torneira do duche, foi à cozinha buscar um copo de água e, de pé, engoliu quatro comprimidos. Ele ia aguentar. Nada era verdade. A água corria. Ele tinha de continuar.

- Pedro Paixão, in Aflição

31/03/2012

fábula do fundo dos teus olhos

sabes, houve um tempo em que os teus olhos eram todo o meu mar
olhava para o fundo dos teus olhos e nunca via o que não podia ser
o que busco nestas águas e sei não estar escrito em cartas de marear
o brilho do sol sobre o salpico de espuma no vento que enfuna a vela
olhava para o fundo dos teus olhos e apenas via o que não podia ter
um mastro erguido contra a solidão na breve leveza da âncora içada


mas ontem olhei para os teus olhos e não vi senão o fundo dos meus

- josé luís

 
in http://poediapoedia.blogspot.com/

15/08/2011

A história d'eles - teimas em fugir

Estou a um palmo de ti, tu olhas para o lado direito, eu estou à esquerda. E assim ficou. Tudo parado no tempo. Casou-se com outro, mas o desejo dela continua comigo, a roer-me sempre que ela quer.
E digo: ou tu ou ninguém, e um pássaro solto das mãos, com um recado para ti. Tu respondes: logo à noite vou falar contigo.
E eu espero.
Espero. Perdoa-me, disseste. Perdoar o quê, tu tens de me perdoar, eu não. Pensa. Será?
Sou eu que te digo, vive para mim, por mim. Para que tudo seja perfeito. Tu teimas em não querer ver, teimas em não acreditar, teimas em desobedecer, teimas em fugir. Há muito que sei que sem ser eu, só posso ser eu. Para que tudo seja perfeito. Não fujas, não temas, não arranjes desculpas esfarrapadas, não digas que não me amas, teimas em fugir.
Eu espero.
Para que tudo seja perfeito.
Teimas em fugir!